Destaque REFLEXÕES

TEMPO DE MÍSTICA.

Por: Pe. Edisley Batista
Pároco da Paróquia São João Batista em Porto Nacional.

Na década de 1960 o grande teólogo alemão Karl Rahner (1904-1984) disse algo que ainda hoje ressoa como uma profecia. Disse ele: “O cristão do futuro, ou será um místico ou não será cristão”. Rahner referia-se à necessidade de uma fé que se baseasse na experiência do Espírito, de tal forma que pudesse reconhecer e fazer experiência de Jesus Cristo. Uma experiência de fé que não estivesse única e exclusivamente fundada no tradicionalismo e em estruturas religiosas que davam segurança, mas não liberdade para crê. Rahner referia-se a uma espécie de fé que se escondia por detrás de uma certa estrutura eclesial, carregada de preceitos que até mesmo privava o indivíduo de sua adesão pessoal ao Cristo. Ele acreditava que quando uma pessoa fazia de fato uma “experiência de Deus”, sua vida era transformada de tal forma que ela, mesmo perdendo sua forma habitual de professar sua fé, não perdia o principal, isto é, Deus.
Passadas tantas décadas, a história mostrou que Rahner estava certo. Nós somos o futuro do que ele falou. Bate à nossa porta a necessidade de cultivarmos a mística, ou mais ainda, de sermos místicos. Por mística nós entendemos aquela experiência de Deus capaz de nos fazer viver todas as realidades e situações da existência sem perdemos nossa vida espiritual, nosso vínculo com o próprio Deus e com as pessoas. Poderíamos ainda traduzir usando a expressão mais comum, isto é, “espiritualidade”. E ainda poderíamos dizer: mística é interioridade, vida interior. A mística que nos é exigida para sermos cristãos é uma espiritualidade construída a cada dia, a cada instante e diante de cada situação vivida. É uma espiritualidade profundamente “encarnada e comprometida, mas genuinamente desprendida e livre” (TOLENTINO MENDONÇA). Ela é livre porque a cada tempo exige sua mística, sua espiritualidade. A mística reconhece sempre a tradição espiritual, mas tem seus olhos fixos no presente.
O místico não é uma pessoa que vive parada, agarrada às coisas do passado. Ela é, ao contrário, aquele que acompanha o movimento do tempo sem perder sua espiritualidade, sua fé, seus valores e, sobretudo, sua comunhão com Deus. “É místico aquele ou aquela que não pode deixar de caminhar”. Mística é, portanto, caminho. E sendo assim, ela é algo possível a todas as pessoas, desde que tenham disposição de fazer um caminho com Deus, consigo mesmos e com os outros.
Nós hoje, pelo momento que estamos passando, em que temos que descobrir maneiras de cultivar nossa relação com Deus, percebemos que a mística é o caminho, isto é, ser místico é construir um caminho novo, em um tempo novo. Quando os encontros em comunidade não são mais, assiduamente, o ponto de vínculo com Deus, o místico vê-se na necessidade de fazer da sua própria vida, da sua própria existência o templo onde habita Deus. A pessoa mística descobre, pelas experiências vividas, que Deus é companheiro de caminhada e não um ponto fixo que fica distante à medida que se caminha.
O cristão místico ciente que Deus caminha ao seu lado toma, humildemente, consciência daquilo que ainda lhe falta, percebe que cada lugar por onde passa ou circunstância que vive, são ainda provisórios, por isso continua o seu caminho. Talvez a coisa mais bela para a espiritualidade do nosso tempo seja saber reconhecer que, por mais profunda que seja a fé, o cristão toma consciência de que não é possuidor de Deus, não é aquele que faz de Deus a sua propriedade, mas que mesmo não possuindo-O de forma, O busca incansavelmente, como ilustra o salmo 42: “Assim como corça suspira por águas correntes, suspira igualmente minh´alma por vós, ó meu Deus”.
Tempos instáveis, exigem mística profunda. Tempos incertos exigem espiritualidade que tenha Cristo como centro e fundamento, uma espiritualidade consciente de que “no meio das coisas que passam” é preciso “abraçar as que não passam”, como nos recorda a oração da Igreja. Sendo assim, o místico é aquele ou aquela que consegue discernir o contexto em que vive, para não correr o risco de abraçar as coisas que passam e abrir mão das que não passam.
Que o tempo passe! Que a mística permaneça….

 

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